Clássicos do Cinema Mudo – Limite, de Mario Peixoto (Brasil, 1931)

Nota: escrevi este texto originalmente para apresentar como um trabalho da disciplina de História do Cinema I, ministrada pelo professor Hugo Mengareli no curso de cinema da Faculdade de Artes do Paraná.

Introdução

Aprecio, neste trabalho, o filme Limite, do diretor brasileiro Mario Peixoto. Obra referencial na nossa cinematografia, permaneceu esquecida ao longo de quase meio século, até ser restaurada nos anos oitenta. Sem dúvida trata-se de um magnífico exemplo de cinema autoral que merece ser conhecido por todo admirador e estudioso da História do Cinema.

Composição de imagens: Limite usa sugestões o tempo todo.

Um olhar pessoal sobre Limite, de Mario Peixoto

O cinema mudo brasileiro atinge sua expressão máxima quando, em 1931, Mario Peixoto (então um jovem com pouco mais que vinte anos) lança sua obra-prima, o longa-metragem Limite, que acabaria sendo seu único filme concluido. Trata-se de uma vigorosa obra de vanguanda que apresenta ricas alternativas de narração, ritmo, fotografia e montagem. Uma verdadeira aula de cinema feito com conceitos radicalmente novos e apaixonados.

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Espaço metafórico: personagens desencontrados na vida dividem o mesmo barco à deriva

Sinopse

Em um barco à deriva, três pessoas em estado de absoluta desolação (um homem e duas mulheres, que os caracteres iniciais apresentam como homem 1, mulher 1 e mulher 2). O filme narrará as estórias de desamor e desamparo destes três personagens.

Estória da mulher um : após um rompimento amoroso, ela parte, em um trem, para uma outra cidade onde irá trabalhar como costureira. O desenrolar da narrativa sugere, por meio de um recorte de jornal, que a moça fugira da cadeia com a ajuda de um carcereiro. Por este motivo, tornará a ir embora.

Estória da mulher dois : Ao chegar em casa encontra o marido (um pianista que toca no cinema acompanhando a exibição dos filmes), dormindo alcoolizado no alto da escada. Abandona a cesta de peixes que trouxera da vila de pescadores e sai para a rua, onde encontra um homem (seu amante ?) com o qual troca algumas palavras (não há letreiros nessa parte) e segue para beira-mar onde, do alto de um monte rochoso lhe ocorrerá a ideia de suicídio.

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Imagens inusitadas compõe o universo visual do filme

História do homem 1 : Casado, o jovem mantém um caso extraconjugal com uma mulher também casada. Após a morte desta, vem a saber, da boca do marido traído, no cemitério onde ela está enterrada, que a mulher era ‘morphética’, ou seja, leprosa. Temendo a castração, o jovem mergulha num sentimento de culpa, medo e desespero.

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A crueldade da imagem: em Limite a idéia da violência contra si mesmo perpassa o filme

Análise

Desde a apresentação de suas imagens iniciais, Limite revela-se um filme incomum, em desacordo com os padrões adotados pelo cinema em seu molde burguês-comercial. Suas imagens vêm carregadas de estranheza e desajuste, resultado de uma depuração que busca do real aquilo que nem sempre é o que se convencionou como fotogênico e que, portanto, nem sempre corresponde às expectativas estéticas do grande público, acostumado, em parte, aos espetáculos que fazem apelo ao teatro filmado e ao folhetim previsível.

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Angulações antinaturais compõe o mosaico de imagens realistas-expressionistas de Limite

Limite é um rompimento com o fazer artístico nos moldes aristotélicos. Sua graça e sua força expressiva nascem do vigor de seu experimentalismo, da poesia catártica de suas imagens-conceito, de sua narrativa intimista que valoriza o tempo psicológico e subjetivado de seus personagens. É um filme rico em abordagens não-usuais do desamparo humano, uma exposição crua e realista de seres desesperançados que vêem-se no mesmo barco perdido, resignados à um estado de coisas que mostra-se inalterável e do qual não parece haver fuga.

Interessante notar o seguinte : Em 1930, data de lançamento do filme, o cinema já se enamorara com a ideia de sonorizar-se. Num sentido contrario, esse filme de Mario Peixoto ergue-se como um monumento ao cinema silencioso. Um filme ‘mais mudo’ que os demais filmes mudos. Pensemos da seguinte forma : um filme mudo, ao apresentar letreiros entre as imagens, de certa forma perde sua mudez (pelo menos a mudez verbal) dentro do espectador (pois, como aprendemos a ler verbalizando, então, mesmo que leiamos em silêncio, ainda precisamos repetir mentalmente a palavra). Ou seja, a palavra como símbolo que representa e substitui um conceito continua presente no filme. Já em Limite, aparecem apenas dois letreiros (na cena do cemitério, quando o marido traído diz ao homem 1 que sua falecida esposa era ‘morphética’). Ou seja, o filme quase rompe definitivamente como o discurso verbal, prevalecendo a narrativa visual (e, portanto, o símbolo visual), com suas múltiplas associações sígnicas e possibilidades mais ricas de interpretação.

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O minimalismo da imagem realça a ação, o gesto

A Câmera em Limite

Os movimentos de câmera de Limite são impressionantes pela liberdade que assumem com relação à narrativa, ao cenário e mesmo aos personagens. Há um plano-sequência em que a mulher 1 está caminhando numa estrada (de costas para a lente). A câmera a segue até que ela para. Aí a câmera aproxima-se e faz um giro de trezentos e sessenta graus em torno da personagem (sem mostrar-lhe o rosto) voltando a parar atrás dela. A mulher torna a andar e a câmera a segui-la. Aí vem o inusitado : à certa altura a mulher sai da estrada (e do enquadramento), porém a câmera segue em frente enquadrando somente a estrada. Depois de alguns metros ela faz um giro de noventa graus e passa a focalizar a cerca que beira a estrada (e a mata de fundo), prosseguindo em deslocamento pra frente. Não bastasse, pouco depois a câmera inverte o sentido de movimento e passa a andar pra trás até enquadrar novamente a mulher, que agora está prostrada contra a cerca. Estranhíssimo. Belíssimo.

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Tomadas ornamentais: sugestões que fogem à lógica de montagem griffitiana

Em outro trecho, a mulher 2 está sobre um monte rochoso perante o mar (o vemos lá em baixo, uma tomada linda !). A mulher pensa no suicídio e a câmera traduz isso através de vertiginos movimentos, balançando e girando desgovernada. A montagem completa a idéia.

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A decupagem valoriza objetos mínimos para compor o universo cotidiano dos personagens

Fotografia

Prevalecem enquadramentos minimalistas e antinaturais. O diretor de fotografia, Edgar Brazil, usa com absoluta elegância ângulos altos, baixos, tortos, deformados. Foca detalhes e valoriza-os : um carretel de fio de costura, uma fita métrica, um peixe morrendo na areia da praia, dois pedacinhos de madeira que boiam sob a água no fundo do barco, árvores flagradas em solidão tristíssima. Também o enquadramento do corpo humano poucas vezes havia sido feito de maneira tão original no cinema : detalhes de pés, pernas, mãos, olhos, cabelos, sempre estilizados.

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Desespero: os personagens são tomados violentamente por pulsões de morte

Se no Expressionismo Alemão o recurso visual que transcreve o estado psicológico das personagens é o uso de cenários com geometrias inusitadas, no Realismo Expressionista de Limite é a manipulação das angulações da câmera que repetem processo semelhante.

Outro ponto : há uma tendência nítida em apresentar sempre o movimento de afastamento das personagens. Em geral elas são vistas entrando no quadro vindas de trás da câmera e seguindo no sentido de se distanciar.

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O elemento água, tão presente no filme, simboliza tanto uma fonte de vida quanto o mar onde as naus se perdem

Montagem

A montagem de Limite é absolutamente descompromissada com a narrativa tradicional, seguindo por veredas novas e descobrindo possibilidades inquietantes de composição de um filme. Também aqui os exemplos são fartos. Um deles : quando narra-se a estória da mulher 2, temos uma decupagem de uma vila de pescadores. A certa altura a câmera aproxima-se subitamente de uma de um bloco retangular de pedra de onde corre um pequeno feixe de água, focando, ao fim, o pequeno orifício de onde ela escorre.

Ocorre que o montador (o próprio Mario Peixoto) repete esse trecho uma boa meia dúzia de vezes, sem um sentido aparente senão o de despertar e aguçar a curiosidade do público. Grande parte de Limite é isso : uma sequência de imagens sucessivas que valem mais como ornamentos estilísticos do que como fatos narrativos, mas são encadeados de tal modo que, sem eles, a intensidade e o brilho do filme ficariam sensivelmente diminuídos.

Mas há uma sequência que vale como um filme em si mesma : a grande montagem da dança das águas no final da estória. Longa e extasiante, essa sequência compara-se aos grandes feitos de montagem do cinema soviético de vanguarda, do qual, parece-me, O Homem Com a Câmera, de Dziga Vertov, é o expoente mais brilhante.

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A desolação e o desencontro

Conclusão

Uma obra que mantém, após tantas décadas, sua concepção ainda absolutamente moderna, certamente merece ser vista repetidas vezes. Disto pode-se esperar que a inquietação irradiada pelo espirito criativo de Mario Peixoto e sua equipe nos seja sempre uma fonte de inspiração.

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Imagem rara: as filmagens de Limite em Mangaratiba, Estado do Rio de Janeiro

Ficha técnica

Direção, roteiro e montagem: Mario Peixoto.
Fotografia: Edgar Brasil.

Música: Erik Satie, Claude Debussy,
Alexander Borodin, Maurice Ravel, Igor Stravinsky, César
Frank, Sergei Prokofiev.

Elenco: Olga Breno, Taciana Rei, Raul
Schnoor, D.G. Pedrera, Carmem Santos, Mário Peixoto, Iolanda
Bernardes.

Duração: 120 minutos.

Livro

Há um livro (um tanto raro) em que o Mario fala sobre o filme. Chama-se “Escritos Sobre Cinema” e pode ser encontrado na estante virtual:

http://www.estantevirtual.com.br/q/mario-escritos-sobre

Assistir online: “Limite” + o documentário “Onde a Terra Acaba”

 


Tudo o tempo leva. / A própria vida não dura. / Com sabedoria, / Colhe a alegria de agora / para a saudade futura.

Helena Kolody

 


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3 Respostas

  1. […] och Rop, Ingmar Bergman, 1972), O Estado das Coisas (Der Stand der Dinge, Wim Wenders, 1982) e Limite (Mário Peixoto, 1930). Di continua vibrante, comprove (está em duas […]

  2. A primeira vez que assistí a este filme maravilhoso, pensei imediatamente: trata-se de uma metáfora sobre a vida. As pessoas que estão naquele barco, estão como nós, seres humanos à deriva. A diferença é que ali, estar no barco é conseqüência de perdas, de dores, etc. E na vida, é causa. Nunca sabemos o que nos espera. Parabéns por este artigo brilhante!

  3. Nada entendo de arte, que dizer da Sétima Arte!… Mas há muito queria ver Limite… Encomendei um download, via esta maravilhosa internet, e em poucos dias pude vislumbrar a obra única de Mário Peixoto. Nada entendi ao vê-lo da primeira vez. As imagens são agradáveis e perturbadoras, uma deliciosa viagem no tempo de um Brasil desaparecido que eu mesmo queria ter vivido (1930!)… Gosto de trabalhos assim, de um visual, de imagens que me convidam à reflexão, que aguçam meus sentidos, minha psique!… Limite é a experiência.

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